13 de janeiro de 2026 - Por Maicon Dias, CEO da Gampi Casa Criativa e especialista em comportamento, marketing e neurociência

Cultura forte incomoda. A sua incomoda alguém?

Depois de muitos anos acompanhando empresas crescerem, travarem e, em alguns casos, se perderem no próprio sucesso, uma coisa fica clara: quase todas dizem que valorizam a cultura do negócio, mas poucas aceitam o que ela realmente exige. Existe uma diferença profunda entre criar um ambiente agradável e construir um sistema que orienta decisões. Quando essa diferença é ignorada, a cultura deixa de ser estratégica e passa a ser apenas estética.

É nesse ponto que entram os atalhos fáceis e altamente copiáveis. Mesa de ping pong para sinalizar descontração, cerveja na sexta para simular pertencimento, frases inspiradoras coladas na parede para compensar decisões mal explicadas, pets no escritório para humanizar relações que continuam hierárquicas e pouco transparentes. Tudo isso cria conforto, não direção. Com o tempo, o pensamento crítico é anestesiado, conflitos necessários são evitados e decisões difíceis são adiadas. A empresa vira um lugar agradável, mas confuso. Uma cultura construída para agradar dificilmente cria alinhamento real.

Cultura, no seu nível mais profundo, é um sistema de escolhas repetidas ao longo do tempo. Ela revela o que a empresa valoriza, mas principalmente o que está disposta a perder para sustentar sua visão. Perder talentos que não se adaptam, perder velocidade para manter coerência, perder aplausos externos para preservar convicções internas. Sempre que a cultura evita desconforto, ela deixa de cumprir seu papel estratégico.

Empresas que crescem de forma consistente não usam cultura para proteger pessoas do desconforto. Usam cultura para proteger a estratégia do ruído. Ela reduz incertezas, acelera decisões e cria um senso compartilhado de direção, mesmo em cenários difíceis. Onde a cultura é forte, a empresa não precisa explicar tudo o tempo todo. As pessoas sabem o que fazer porque sabem o que a empresa é.

Talvez a pergunta mais incômoda para um CEO não seja qual é a nossa cultura, mas quais comportamentos estamos tolerando hoje que sabotam silenciosamente o futuro do negócio. Cultura não se revela nos momentos inspiradores, mas nas concessões pequenas e recorrentes que a liderança justifica em nome de um propósito maior.

Cultura forte quase sempre parece exagerada para quem observa de fora. Às vezes dura, inflexível ou até estranha. Mas é essa nitidez que permite que uma empresa cresça sem se diluir. No fim, cultura não é sobre criar um ambiente confortável. É sobre sustentar, todos os dias, um sistema de decisões coerente com aquilo que a empresa decidiu ser, de dentro para fora.

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