22 de abril de 2026 - Por Annie Müller, Sócia-Diretora de Negócios da agência de branding Protarget.

Portfólio de perspectivas

É isso que os grandes encontros promovem. 

E é esse o nosso antídoto à mesmice. 

Repertório nunca contou tanto. Massa crítica que sempre foi diferencial, agora é fundamental. Ninguém poderá ler por você, escrever por você. Quer dizer: a inteligência artificial, sim. Mas como ela escreve por você, escreve por todos. E a originalidade do pensamento, combinada com talento criativo e intuição, são os únicos ativos insubstituíveis (sempre foram, é verdade, mas agora ainda mais). Entre a personalização e a pasteurização, quem você escolhe? A IA produz em volume, escala conteúdos e até ideias, mas pessoas e marcas que se destacam ganham pelo aprofundamento e autenticidade. A autenticidade tem sido a palavra-chave mais frequente nos encontros sobre inovação e criatividade. Mas eu escolho ir além dela. Escolho encontros autênticos. Entre o tanto de coisa boa que escutei, fico com o poder das relações, aquelas entre humanos, pautadas pela vontade de entrega e qualidade genuínas. Outro dia, escutei no meu podcast filosófico favorito, o Elefantes na Neblina, que a atitude ética mínima da vida é ter uma postura construtiva. Num mundo que parece padecer pela destruição – da atenção, da originalidade, do próprio humano, o comportamento construtivista é um ímpeto heróico e urgente. Como construímos as nossas relações? Pessoas ou profissionais, somos as pessoas com quem nos relacionamos. E, quando vivemos para construir, vivemos a evolução do ser e estar aqui e agora.  

Na edição 2026 do South by Southwest, voltei com mais perguntas do que respostas, como é o esperado – e com as perguntas pipocando na minha cabeça em velocidade digna da computação quântica. A missão Artemis lançada essa semana não é páreo para o lançamento de tantos insights mentais. O desafio, depois de um evento da dimensão do SXSW, é fazer costuras. Costurar os pontos soltos que formam a convergência citada por Amy Webb com outros. Costurar e identificar os multifatores que Amy apresentou antes da tempestade destruir nosso território. Costurar territórios: quais nos pertencem, quais comunidades queremos pertencer. Tratando-se de territórios, me impressionou muito os Brand Worlds: os modelos de mundo são a nova fronteira da IA, o próximo passo das LLMs. Na sessão Brands Worlds: the next marketing frontiers, assisti o CEO da startup Vurvey Labs, Chad Reynolds, apresentar esses espaços onde um time de agentes com diferentes papéis atuam nas funções de marketing, integrando processos de pesquisa, curadoria de produto, testagem, avaliação de campanha etc. Por isso, saí desta edição do festival mais confusa do que entrei: no desafio da convergência toda, como vamos orquestrar times humanos e agentes, quando sequer orquestramos com maestria as pessoas? O conceito da empresa Vurvey é sobre essa integração: “AI powered by People”. Estamos preparados? Não. Precisamos estar? Sim. 

Outra palestra que me marcou foi a supracitada conversa com as baleias. David Gruber, fundador do Project CETI, e Nathan Lump, da National Geographic, abordaram o uso da IA para traduzir a comunicação das baleias cachalotes – e também interpretar outras linguagens naturais e não-humanas – para, quem sabe, além de entendermos melhor nossa interação com animais e plantas, nos anteciparmos com uma comunicação alienígena, quando chegar a hora. Bem, aqui me restou pensar que isso é muito incrível, mas que em paralelo temos o enorme e histórico desafio de conversar melhor com o coleguinha do lado. Bora?

Das costuras que sigo fazendo, um caminho claro é ligar as pontas entre Convergência, Comunidade e Conversas de verdade. Sem querer, acabei de elencar os 3Cs que mais escutei por lá. Como convergir humanos e máquinas numa comunidade real com conversas verdadeiras? 

Com a IA, a mediocridade ficou gratuita. O básico bem feito já não nos serve há algum tempo e agora mais do que nunca. A colcha de retalhos que é fazer  comunicação na pandemia da informação se tornou complexidade inestimável. Ouvi que existem dois tipos que usam a inteligência artificial: os preguiçosos, que não querem aprender nada, e os curiosos, que querem aprender de tudo. Quem escolhemos ser? É no segundo que encontraremos as costuras capazes de conectarmos o mundo misterioso que está surgindo e recriar o que faz sentido.

Por fim, sobre a era da mesmice. Estou lendo o livro que originou a palestra, The age of sameness, de Gulay Ozkan. A autora fala sobre repetição, variação e ritmo como os três elementos que constroem o novo ou nos afundam na mesmice. Um estudo sobre a curva da criatividade mostra que é o equilíbrio entre os três que forma as ideias mais originais – e evita a mesmice que surge nos extremos. Tanto a escassez de variação (informação, novidade, mudança) quanto o excesso de estímulos causam a enfadonha mimetização das coisas. O nosso antídoto será, então, ampliar nossas lentes, encarar os processos humanos que são imperfeitos e cheios de fricções e não esperar receita pronta – mesmo na pronta operação que nos oferece a IA. Ampliar o nosso portfólio de perspectivas, treinar o cérebro criativo. É esse o antídoto à sucumbência da nossa espécie.

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