26 de março de 2026 - Por Fernando Silveira, presidente da ARP e sócio-fundador da Integrada Comunicação Total
A inflação das palavras.
Vivemos numa era de comunicação acelerada em que palavras e expressões amplificadas são moeda corrente. Textos, discursos e em bate-papos descontraídos é comum ouvir “incrível”, “exclusivo”, “estou em choque”, “imperdível”, “experiência”, entre outros termos originalmente carregados de intensidade, que tornam qualquer tema num anúncio desesperado ou num pedido panfletário. Com o tempo, o resultado é uma erosão do impacto dessas palavras: quanto mais são usadas fora de medida, menos capazes de transmitir admiração genuína. Experiência é uma delas. Há pelo menos uma década se usa para tudo, o que tornou vulgar. Ainda hoje ouvi um spot de rádio onde o texto dizia algo como: torne a segurança da sua empresa uma experiência incrível. Sinceramente, experiência se tem em situações únicas ou raras, vividas para deixar na memória afetiva e não vejo a segurança algo que permita experimentar, mas sim como uma estrutura que se quer ter e garantir.
A repetição constante transforma reações fortes em expectativas habituais. Se tudo é “incrível” ou “experimentável”, nada realmente se destaca. O exagero tende a ser percebido como hiperbólico ou pouco confiável e o discurso perde autoridade, sem falar que o excesso de ênfase cria ruídos e a mensagem principal acaba diluída por informações que competem entre si.
O motivo de tudo é a exaustiva necessidade de impacto instantâneo ou busca pela valorização pessoal. Em ambientes cada vez mais digitais, chamar a atenção parece ser o objetivo central e o exagero “funciona” como atalho para engajamento. As estratégias de marketing e algoritmos premiam títulos e frases impactantes, mesmo que sejam vazias, ainda mais quando os dados apontam para aceitação mais rápida e maior para determinada expressão ou gague, naquela velha máxima de rótulos fáceis em lugar do esforço de explicar nuances.
É óbvio que nesse contexto e em pouco tempo, consumidores e leitores aprendem a filtrar superlativos e buscam provas concretas, mas também é fato que quando algo realmente merece destaque, será mais difícil fazê-lo ser percebido, pois promessas anteriores, genéricas ou não, já formaram as narrativas “imperdíveis” ou “únicas” em vazias, gerando frustração e desgaste.
Em um determinando tempo da minha formação em Comunicação Social – Publicidade e Propaganda, um dos professores foi insistente num pensamento: as palavras têm peso. Disse por várias vezes em sala de aula para todos, mas individualmente, sempre reforçou outros pontos como: aqui, além de peso, busca o som da frase. Ou ainda, busca a dramaticidade do que está a escrever. Entre sons, dramas, odores e outras sensações, a ideia sempre foi trazer para a comunicação escrita o volume honesto, real, formado pela composição de ideias e não somente por uma palavra ou expressão curta de impacto. O exagero constante é uma forma rápida de comunicação, mas paga-se o preço da dessensibilização e da perda de confiança. Recuperar a força das palavras exige escolha consciente: falar menos com hipérboles e mais com precisão, empatia e provas. Só assim recuperamos a capacidade de nos admirar e de ser verdadeiramente admirados