17 de junho de 2021 - Por Germano Bedin

O olhar para os pequenos

Por Cris De Luca, Head de PR do Gengibre.cc / Professora da UniRitter – Sócia da ARP

Segundo dados da PwC Brasil, dos 6 milhões de empresas existentes no País, 500 mil são pequenas e médias, 100 mil são companhias de grande porte e/ou de origem transnacional e o restante são microempresas com escala e receitas muito pequenas. Elas têm uma participação no PIB de 30%, ou seja R$ 4,4 trilhões, e são o setor que mais emprega: 10,1 milhões de pessoas nas pequenas e 5,5 milhões nas médias.

Inclusive, segundo o Sebrae, os pequenos negócios foram responsáveis por cerca de 70% dos novos empregos gerados de carteira assinada no primeiro trimestre deste ano. Temos que concordar que com esses números, podemos dizer que quem move a economia do País, não? E por que no mercado da comunicação como um todo ainda damos tão pouca importância para eles?

Talvez o olhar tenha mudado um pouco para este setor desde março de 2020, quando a gente entrou em distanciamento social, mas por que a gente só foi entender agora o quanto é necessário essas empresas terem sua comunicação profissionalizada, pensada de forma estratégica?

Aí me passa pela mente uma hipótese: porque todos vimos amigos, parentes, conhecidos, clientes e afins tendo que se reinventar de uma hora pra outra, alguns entraram no ambiente digital pela primeira vez, mudaram completamente o formato de negócio e outros, infelizmente, não conseguiram lidar com tudo e fecharam as portas. E mais uma hipótese me passa, será que se esses negócios estivessem sendo assistidos por profissionais de comunicação que pensam de forma estratégica isso teria acontecido?

“Tudo bem, Cris, mas onde tu queres chegar?”. Há pouco mais de dois anos, eu me juntei à Carol Kirsch no Gengibre, porque a gente já tinha passado por agências, trabalhado com e em empresas pequenas, médias e grandes, e notou que juntas (e com outros parceiros e profissionais) poderíamos fazer muito mais diferença para os pequenos. Existe um oceano a ser navegado quando se fala nesse setor e a gente resolveu investir nossa energia nele.

É preciso educar o mercado de forma geral sobre a importância e o valor da comunicação estratégica integrada, que o mundo não é somente rede social (vide os microinfartos que todo mundo tem quando cai uma rede do Tio Mark), que é importante planejar, e, principalmente, que ter recursos alocados para a comunicação não é gasto, e sim investimento.

“Ah, Cris, mas isso acontece porque uma empresa pequena não tem dinheiro para pagar o quanto custa uma agência ou profissionais super qualificados!” Segundo o Sebrae, uma empresa de pequeno porte pode ter receita bruta anual entre R$ 360 mil e R$ 4,8 milhões. Será mesmo que é falta de grana?

O que temos que lembrar é que, na maioria das vezes, nesses negócios são os donos que fazem tudo, não tem alguém pensando no marketing pra eles, e é aí que a gente entra. Eles não dominam os conceitos e, mesmo quando tem entendimento, não tem braço para fazer tudo. Ter alguém de fora para ajudá-los a pensar e colocar em prática faz uma diferença enorme. E, não, não precisa ter uma mega estrutura por trás, mas sim, saber quais profissionais têm o perfil mais alinhado para cada trabalho e chamá-los apenas quando tiver necessidade. É essencial uma flexibilidade maior quando se trabalha com empresas menores, inclusive ir jogando com os orçamentos disponíveis a cada mês.

Se for parar para pensar, as estratégias e ações são muito similares às desenvolvidas pelas grandes empresas, mas as necessidades são completamente diferentes porque muitas ainda precisam se entender como negócio, como marca, é preciso trazer à tona a essência, construir laços com os públicos, mostrar os porquês de um movimento funcionar melhor que outro, que não é porque o concorrente está fazendo e está tendo resultados, que vai dar certo ali também.

Mas confesso que, de forma geral, é bem mais tranquilo e prazeroso do que trabalhar com marcas maiores. Falo isso por experiência própria, até pensando nos primeiros três meses de pandemia. Apesar de todo mundo ter sofrido um impacto bem forte, a gente conseguiu, por ter planejamentos bem construídos, ajudar na transformação de vários negócios.

Sempre falo em sala de aula que é incrível a gente ter vontade e a ambição em trabalhar com marcas e empresas grandes, multinacionais, mas não dá para esquecer que normalmente quem vai dar a primeira oportunidade pra gente, sem experiência, vai ser o pequeno, quem realmente precisa do nosso olhar estratégico é o pequeno, e depois que a gente vê a diferença que a gente pode fazer em negócios deste tamanho, a gente só quer fazer mais e mais.

O mercado está mudando, se renovando, colocando um monte de coisas novas pra gente pensar. Há muito tempo se fala em transformar estruturas e formas de se trabalhar em comunicação, ter novos olhares para as pessoas e para as marcas. Se a gente não aproveitar uma pandemia para fazer isso, vai esperar acontecer mais o que?

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