11 de julho de 2022 - Por Jonatas Abbott

A morte, a mediocridade e a Abradi

2022 ficará marcado como o ano em que o digital finalmente ficou velho, ultrapassado e medíocre (dicionário, please).

O ano era 2004. Cesar Paz, Tiago Ritter e outros agitadores digitais da época iniciaram a Agadi, Associação Gaúcha das agências digitais. Ainda pela Plug In fui o primeiro patrocinador da entidade. Mais do que isso, com o estatuto da Agadi debaixo do braço, percorri o Brasil e fui o grande elo (pela Plug In e depois pela Dinamize) que desenhou o que ela se tornaria, uma grande entidade nacional com 14 regionais, duas pesquisas (uma de cargos e salários e outra de tamanho de mercado), dois eventos sensacionais (prêmio Pororoca e Digital Speed Dating – link). Em 2005, com a Dinamize e a Telium, representei também os dois primeiros patrocinadores do FIC (big evento da entidade gaúcha).

Em 2005, ainda não sabíamos, mas havia um outro agitador, esse no Rio de Janeiro, que também desenhava uma entidade para representar o digital. Gustavo Pereira, o GP, sempre fora empreendedor raiz. Professor de digital e agitador carioca. Mais do que agitador, um agregador que queria reunir e integrar, ajudar os outros a crescer.

Reunir, Integrar, Agitar, Crescer. O Gustavo resumia o que significa o associativismo, suas razões e objetivos. Juntos realizamos muitos eventos e acabamos o 2013 (eu de presidente da nacional e ele da regional carioca, mas atuando em todo o Brasil) no auge da Abradi, com 700 associados unificados numa federação nacional. Nesse ponto, começamos a envelhecer, que nada tem a ver com a idade, mas com a mentalidade.

Gustavo Pereira não chegou a testemunhar o pior. Já estava hospitalizado há dois meses, quando a chapa eleita para a Abradi nacional com mais de 70% dos votos foi impugnada pela atual gestão, que agora se perpetua no poder.

Gustavo Pereira morreu no último dia 3 de junho. Com ele, morreu o melhor da Abradi. Sem conseguir unir, agregar, crescer e agitar juntos, o mercado resta medíocre, adjetivo que significa “de qualidade média, comum, mediano, modesto, pequeno”. Parece ser o que ocorre na Abradi nesse momento.

O que sucedeu na Abradi após a impugnação se resume numa diretoria que ignorou um abaixo assinado de mais de 130 nomes, ignorou manifestações de diversos ex-presidentes nacionais (incluindo o fundador Cesar Paz) e regionais, ignorou o parecer do próprio escritório de advocacia que recomendou novas eleições, ignorou a indignação de centenas de agências e ignorou mais de 130 empresas que já se desassociaram da entidade desde a impugnação (número estimado que levantei – não há números oficiais até o momento, até a renúncia do presidente da paulista apenas em SP, 70 agências já haviam saído). Facilmente, chegarão a 200 os cancelamentos, a avaliar os que estão por vir de dentro do grupo que participo no WhatsApp de dissidentes que estão criando uma nova entidade.

Quando você lidera uma entidade que perdeu 100 a 200 associados de um total de 480, você sabe que fracassou colossalmente. Estrondosamente. Se entidade é unir e representar a perda de 30 a 40% dos associados em 30 dias é exatamente o oposto.

Mas talvez o quadro todo seja ainda mais assustador. Se acumulam nas redes denúncias de censura dos insatisfeitos na lista de e-mail, exclusão sumária de insatisfeitos do grupo de What’s da entidade, exclusão do post no instagram de despedida do presidente da regional paulista. E vejam, a regional paulista reunia até à reeleição de Rodrigo Neves quase 300 associados. Mesmo reeleito com maioria esmagadora e representando mais de 55% dos associados do Brasil todo, o presidente renunciou devido à impugnação, censura e etc. Ele próprio acredita ter sido censurado dentro da entidade e não acredita mais no projeto.

É um verdadeiro desmoronamento de um projeto ao qual tantos se dedicaram durante 18 anos. Um pequeno grupo ignora tamanha lesão que causam no mercado digital brasileiro.

O retrato, assustador, é de uma entidade cuja maior regional está sem presidente, onde pelo menos 100 agências já cancelaram sua associação e onde o voto da maioria dos associados foi ignorado para que a situação se mantivesse no poder apoiada por um conselho de cinco pessoas.

Um mercado incapaz de se organizar em uma associação se apequena, enfraquece, fica fraco, mediano. Medíocre. Esse é o meu sentimento no momento. Nosso mercado se apequenou e a tristeza da partida do GP aumenta nessa perspectiva.

No início dos anos 2000 éramos a garotada da internet. Mudaríamos o mundo. Junto com a internet. O mundo seria mais democrático, acessível e justo.

Em 2022 não foi apenas o GP que deixou de existir.

Jonatas Abbot é diretor-executivo da Dinamiz, para Coletiva.net

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